Com a abertura do ano legislativo em um ambiente marcado pela antecipação do debate eleitoral de 2026, Câmara e Senado retomam hoje os trabalhos, sob forte polarização política e disputa por narrativas. De um lado, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta imprimir ritmo a uma agenda social e trabalhista, com foco em temas como a revisão da escala 6×1 e a ampliação da isenção do Imposto de Renda. De outro, a oposição inicia o período sem apresentar um conjunto claro de propostas sociais, concentrando sua atuação em pautas de caráter político e institucional, como a anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e a derrubada de vetos presidenciais.
Procurados pela reportagem, parlamentares e senadores de partidos de direita preferiram não se manifestar oficialmente sobre uma possível estratégia legislativa mais ampla para o ano. Interlocutores ouvidos sob reserva afirmam, porém, que, até o momento, não há consenso interno nem definição de prioridades voltadas diretamente à área social, o que reforça a percepção de que a oposição atua de forma reativa, orientada sobretudo por temas ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao seu entorno político.
Apesar da ausência de uma agenda social estruturada, direita e esquerda convergem em um ponto central: a segurança pública. O tema será um dos primeiros a entrar na pauta das comissões nesta semana e tem previsão de chegar ao plenário logo após o carnaval, refletindo a pressão da opinião pública. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em novembro do ano passado apontou a violência como a maior preocupação de 38% dos brasileiros, superando a economia, com 15%. Levantamento mais recente, divulgado em janeiro, indica queda no índice, mas mantém a segurança como principal temor, citado por 31% da população.
No campo governista, a gestão do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski tentou buscar responder a essa demanda por meio de iniciativas legislativas. Entre elas, uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que amplia as prerrogativas da União na área de segurança pública, hoje concentrada nos estados. A proposta enfrentou resistência de governadores e acabou profundamente alterada no Congresso. Outro projeto, o chamado PL Antifacção, mira o enfraquecimento financeiro de organizações criminosas. A matéria foi aprovada no Senado com mudanças e retorna agora à análise da Câmara.
Diário de Pernambuco

